Depois de muita polêmica, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou novamente a venda de medicamentos que não precisam de prescrição médica em prateleiras. A justificativa é que, ao passar para dentro do balcão, foi prejudicado o direito de o consumidor escolher o medicamento mais conveniente e que a proibição não tinha reduzido a automedicação — o que abre espaço para que as perigosas “farmácias caseiras” proliferem ainda mais e gera um retrocesso no combate ao problema.
Os medicamentos são produzidos para serem receitados por médicos, e os riscos são normalmente subestimados. A maioria dos fármacos causa algum mal para o organismo. Por essa razão, o profissional de saúde prescreve a dose e a duração do tratamento. Como a maior parte dos remédios é processada pelo fígado, há casos em que o paciente pode desenvolver um processo inflamatório (hepatite) ou até mesmo uma lesão mais grave. Sem contar que o uso excessivo de analgésicos e anti-inflamatórios pode até piorar o quadro de saúde.
É preciso conscientizar a população de que existe uma sutil diferença entre a cura e o envenenamento.
Estima-se que 18% das mortes por intoxicação no país são causadas pela ingestão inadequada de medicamentos. Segundo a própria Anvisa, 23% dos casos de intoxicações infantis são motivados pelo armazenamento incorreto de medicamentos em casa, e o Sindicato das Indústrias Farmacêuticas contabiliza 20 mil mortes por ano por causa desse consumo inadequado e sem orientação. É um número expressivo, que pode ser combatido com o aumento do rigor na venda, uma fiscalização maior sobre a publicidade de medicamentos e o investimento em campanhas educativas dos perigos de se comprar e tomar remédios sem prescrição médica.
Por: Ana Carolina Cardoso. Hepatologista da clínica HepatoScan