Algumas vezes já ouvi pessoas dizendo que o português (brasileiro) está involuindo. Essas pessoas justificam sua opinião alegando que estamos cortando as palavras pela metade, que não pronunciamos mais nada direito, que nosso vocabulário está ficando pobre, não conjugamos os verbos etc.
De certa forma, essas pessoas estão certas, pois, afinal, não falamos mais como antigamente. E, de fato, algumas palavras, e até expressões, estão diminuindo mesmo. Por exemplo, a expressão "Nossa Senhora" acabou virando "u". Isso mesmo, uma expressão tão grande acabou virando uma vogal. Como? Primeiro, a expressão se esvaziou do sentido religioso etimológico; em seguida, foi simplificada para apenas "nossa", podendo variar com "nussa"; daí vieram, respectivamente, outras duas simplificações: "nó" e "nú"; e, finalmente, a expressão chegou a "u" (ou "uh") - afinal de contas, quando um jogador de futebol quase faz um gol, a torcida grita "uh!", que expressa o mesmo que "nossa senhora!".
De forma esquemática, o processo foi:
Nossa Senhora (com sentido religioso) > nossa senhora (sem sentido religioso) > nossa/nussa > nó/nú > u/uh.
Um outro processo que se pode perceber ocorrendo no português é o enfraquecimento do item "não" em posição pré-verbal. Por exemplo, na frase "Eu não vou" o "não" ocorre antes do verbo - é, portanto, pré-verbal. Contudo, essa ocorrência está se tornando pouco comum na língua falada (que está sempre à frente da escrita em termos de mudança). O primeiro sintoma do enfraquecimento do "não" em posição pré-verbal foi a necessidade que surgiu de se reforçar a negação de outra forma - usando uma segunda partícula negativa. Daí vieram as frases com dupla negativa (muito comum em outras línguas, como o francês ou o alemão), como em "Eu não vou não". O processo de enfraquecimento do primeiro "não" prosseguiu, provocando mudança na forma do item. Assim, ele passou a ser "num". Nosso exemplo passou a ser, então, "Eu num vou não". Note que este "num" só pode ocorrer na primeira posição de negação. Não é possível, por exemplo, a frase "Eu não vou num". Como o processo ainda está em continuidade, vemos indícios de que a primeira negativa deixará de ser usada, pois já há ocorrências, perfeitamente aceitáveis, de frases como "(Eu) vou não", "Quero não", "Pedi não" etc. A hipótese, portanto, é de que, em breve, haverá apenas a segunda negativa.
Esquematicamente, temos:
Eu não vou > Eu não vou não > Eu num vou não > (Eu) vou não
Em relação aos verbos, há muito que a conjugação ficou resumida a duas formas apenas: a da primeira pessoa do singular e a das demais pessoas. Assim, na língua falada, nós temos, por exemplo:
Eu canto / como / durmo / etc.
Você canta / come / dorme / etc.
Ele/ela canta / come / dorme / etc.
Nós canta / come / dorme / etc.
Vocês canta / come / dorme / etc.
Eles canta / come / dorme / etc.
Para alguns, isso pode parecer absurdo. Mas pasmem: nós falamos assim mesmo! E, sabe de uma coisa? O mesmo processo ocorre no francês, por exemplo, que é considerada a língua românica mais desenvolvida, em termos de evolução.
E por falar em evolução, o que os exemplos acima mostraram em relação ao português é considerado pelos especialistas e estudiosos como um caso de evolução. Mas isso não quer dizer que a língua esteja melhorando (ao contrário de involuindo); quer apenas dizer que há mudanças ocorrendo, as quais não podem ser barradas. O uso faz isso - provoca mudanças constantes na língua. Algumas delas "pegam", outras, não. E os maiores responsáveis por tudo isso somos nós - os falantes, os donos da língua.
Não se trata, portanto, de evoluir ou involuir, melhorar ou piorar. Trata-se de mudar. O mundo muda, as pessoas mudam, tudo muda. Por que com a língua seria diferente? A questão que nos intriga é: aonde essas mudanças vão nos levar? Só o tempo dirá. Vamos aguardar e, enquanto isso, falar muito para sermos participantes das mudanças que virão. E viva a nossa língua!
Danívia Matozzo
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