sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Pragas urbanas: saiba mais sobre as baratas, os problemas que acarretam e como combatê-las

O calor é uma festa. Traz sol, praia, piscina e... baratas. Esses odiados bichinhos se animam com a chegada da estação, porque é nessa época que se reproduzem com maior facilidade, graças à aceleração de seu metabolismo. Como todo inseto, as baratas não produzem calor e precisam de um lugar quentinho para se abrigar - entre 25° e 28° C – já que dependem exclusivamente da temperatura ambiente. Portanto, nas noites quentes é melhor se preparar: a chance de alguma barata cruzar o seu caminho é grande.

Dentre as mais de cinco mil espécies existentes no mundo, duas se destacam no meio urbano: a Blattella germânica, pequena, amarronzada e achatada, com duas listras pretas longitudinais nas costas (vive em frestas e cavidades) e a Periplaneta americana, grande, castanho avermelhada, com uma mancha circular amarelada em volta das costas (vive em esgotos e em áreas maiores como forros, porões, cabines elétricas, tubulações de águas pluviais).

A primeira é conhecida como barata da cozinha ou francesinha, mais comum em bares e restaurantes - povoam até máquinas de café - e podem viver em média nove meses. Já a Periplaneta é a terrível cascuda voadora que chega a viver até três anos, sendo um dos insetos mais temidos e repugnantes para mulheres e crianças (dizem que alguns homens também fogem gritando).

Segundo a bióloga e diretora técnica da ABCVP (Associação Brasileira de Controle de Vetores e Pragas), Lucy Figueiredo, outras espécies também têm ocorrido com certa frequência nas áreas urbanas, como a barata manchada (Supella longipalpa - pequena, com manchas branco-amareladas e marrons, como um jogo de xadrez), e a barata do jardim ou do suriname (Pycnoscellus surinamensis - marrom acinzentada, meio esfumaçada, tamanho médio e sem manchas).

REPRODUÇÃO

De acordo com a bióloga e mestre em saúde pública Lucia Schuller, as baratas são ovíparas, ou seja, botam ovos. Esses ovos vêm embalados num envoltório chamado ooteca - quase como um ninho fechado - e sua quantidade varia de espécie para espécie.

Por exemplo, a germânica chega a produzir 48 ovos por ooteca e gera cerca de oito ootecas em sua vida adulta, matematicamente falando: se tudo der certo para tal inseto, a baratinha pode produzir mais de 300 rebentos, as ninfas, que ainda não têm asas nem aparelho reprodutor definido. Por sua vez, a Periplaneta coloca somente 16 ovos por ooteca, porém é capaz de liberar 90 ootecas - durante a vida - em lugares protegidos, o que dá um pouco mais de 1.400 cascudas povoando os esgotos.

Nessa questão do cuidado “maternal”, a germânica vai além. Ela carrega a ooteca o tempo todo e só libera a bolsa quando os ovos estão a ponto de eclodir, dessa maneira, protege as futuras baratinhas até o último segundo. “E essa não é uma característica comum aos insetos”, explica Schuller.

A ooteca é forte, tem proteção contra agentes externos e o inseticida não chega a atingi-la, mas se a fêmea sofre um ataque com o químico, libera rapidamente o envoltório para que os ovos possam eclodir – estejam na etapa de desenvolvimento que estiverem -, em uma última tentativa de perpetuar a espécie.

ONDE VIVEM?

O meio urbano é uma maravilha para os insetos, principalmente para as baratas.

O homem constrói edificações com muitas cavidades, espaços perfeitos para proteção e reprodução. Além disso, segundo a bióloga Lucia Schuller, as baratas menores se acomodam até em rachaduras abertas pelas alterações por tempo de uso dos materiais. “As germânicas se escondem em frestas com apenas alguns milímetros de abertura”, pontua a pesquisadora.

Tanto é assim que podem ser encontradas em redes pluviais, de esgoto, redes elétricas, quadros e painéis de luz e cabines elétricas ou podem aparecer - de repente - dentro de gavetas e armários. A bióloga Lucy Figueiredo ainda destaca que esse resistentes bichinhos possuem alta adaptação, e passam cerca de 70% da vida em esconderijos. “Sempre saem à noite para procurar alimentos“, afirma.

Como vivem a maior parte da vida enclausuradas, a afirmação de que resistiriam a um ataque nuclear pode ser verdadeira. A unidade de medida da radiação é o REM e os humanos toleram bem uma exposição a cinco REMs, sendo a dose letal 800 REMs - calcula-se que uma pessoa esteja exposta a cerca de 16 REMs durante a sua vida.

De acordo com Lucia Schuller, testes desenvolvidos por radiologistas nos Estados Unidos descobriram que a barata Periplaneta tolera até 67,5 mil REMs, enquanto a germânica suporta até 105 mil REMs. “A quantidade de radiação que as baratas aguentam é equivalente àquela decorrente de uma explosão termonuclear, porém o calor gerado seria fatal mesmo para esses insetos resilientes”, explica Lucia.

ATAQUE E DANO

Primeiro, vamos deixar uma coisa bem clara: as baratas não mordem como muitos podem pensar. “As baratas cortam pedaços de alimento graças a mandíbulas fortes e esclerotizadas, um aparelho mastigador raspador, que garante essa função”, esclarece a bióloga Lucia Schuller. Destroem e “comem” tudo que encontram pela frente: de sacos de biscoitos a rótulos e livros, apenas raspando.

Lucy Figueiredo conta que as baratas cascudas também têm cerdas fortes nas pernas (como espinhos) e que, ao atingir uma pessoa durante uma revoada, dão a sensação de uma verdadeira "mordida”. E que, em altas infestações – identificáveis pelas fezes, ootecas vazias, esqueletos ou cascas de ninfas e um odor característico -, essa espécie pode até mesmo recolher alimento das bocas de crianças, pessoas enfermas e acamadas. “São casos críticos, resultado de relaxamento na higiene ambiental ou de áreas insalubres”, pondera Lucia Schuller.

De toda forma, as pesquisadoras concordam que, mesmo que não se aproximem da boca das pessoas, esses são insetos perigosos à saúde, pois vetoram microrganismos patogênicos na cutícula, asas, antenas, exoesqueleto e pernas, ou seja, praticamente em todo o corpo.

Como transitam por áreas muito sujas como lixo e esgoto, as baratas carregam bactérias – entre as quais, a Salmonella -, além de fungos, vírus e vermes, todos capazes de causar diarreia e desidratação aos humanos. E como se dá essa contaminação? “É simples”, responde Lucia Schuller. “Quando a barata passa sobre os alimentos ela descarrega esses microorganismos que entram no organismo humano quando alguém ingere o alimento contaminado“, afirma.

Além disso, a bióloga Lucy Figueiredo explica que as baratinhas também causam alergias, como crises de asma, pois pedaços minúsculos do corpo podem se misturar à poeira e serem inalados por pessoas sensíveis. ”Pesquisas reportam que causam mais alergias que os conhecidos ácaros da poeira”, pontua a pesquisadora.

PREVENÇÃO E COMBATE

Prevenir a casa contra esses insetos poupa dificuldades e custos, porque após uma infestação instalada o controle requer muito mais esforços. Por isso mesmo a bióloga Lucy Figueiredo chama a atenção para a redução da oferta de quatro pilares fundamentais:alimento atrativo, água, abrigo e acesso.

Assim, higienização - com bom manejo do lixo e de resíduos - e o reparo de vazamentos e infiltrações continua sendo a melhor solução para afastar as baratinhas.

De acordo com o farmacêutico bioquímico Eduardo Joseph Sayegh um principais fatores de controle desses insetos está na utilização de mecanismos de exclusão, que bloqueiam as principais portas de entrada das baratas nas residências.

Um dos acessos mais fáceis e utilizados é o ralo, por onde grande parte das Periplanetas entram. Para barrar fisicamente a passagem, uma dica é optar por modelos de tampa dupla, que abrem somente na hora do uso e podem ser mantidos fechados o resto do tempo. Outros mecanismos de exclusão são as lâminas de borracha sob os vãos das portas (tipo rodinho) e o telamento de aberturas voltadas diretamente para a rua.

Selar frestas e fendas também faz parte das medidas de prevenção e, nestas se incluem as frestas nos rejuntes de azulejos, buracos nas paredes, espaços ao redor dos encanamentos, vãos de armários junto às paredes, vãos de tomadas, vãos de rodapés e todo espaço oco ocasionado por falta de manutenção.

Segundo as biólogas Lucia Schuller e Lucy Figueiredo, podemos trazer as baratas “de carona” para dentro de casa. Os insetos tendem a se esconder em caixas de papelão, embalagens de ovos e embrulhos de papel higiênico, portanto, o ideal é sempre fazer uma triagem nas embalagens. Troque ou descarte-as antes de dar entrada em casa e evite possíveis problemas.

Se mesmo após tomar as medidas de prevenção, as baratas insistirem em aparecer, há opções além do chinelo:

- se for apenas uma barata, vale lançar mão do inseticida “de prateleira” ou vendido em supermercados e que é eficiente para resolver aparições pontuais. “Nesses casos uma borrifada sobre a barata já resolve”, indica Sayegh.

No entanto, o bioquímico ressalta que são produtos tóxicos e que podem causar danos à saúde quando usados de forma incorreta. “É importante ter consciência de quão perigosas são as substâncias inseticidas ao adquirir estes produtos. Alguns até explicam como fazer uma desinsetização caseira o que, ao meu ver, é uma temeridade”, pondera.

Além do inseticida, Sayegh sugere o uso de dispositivos-porta – iscas, lacrados e com acesso lateral: as baratas entram no recipiente para se alimentar da isca com inseticida e morrem ao longo do tempo. “Podem ser espalhados nos mais diversos ambientes, principalmente armários da cozinha, sob a pia, perto de estoques de alimentos e em áreas externas, mas fora do alcance de crianças e animais domésticos”, ensina.

No entanto, segundo a diretora técnica da ABCVP, Lucy Figueiredo, quando a infestação for de grande porte - com presença de ninfas e adultos em progressão - a abordagem correta deve ser a contratação de profissionais especializados, de empresas de controle devidamente licenciadas pelos órgãos ambientais de cada estado. “A Associação Brasileira de Controle de Vetores e Pragas pode ser contatada para prestar orientação quanto à listagem dos prestadores de serviço licenciados, além de outras orientações”, conclui.