Estima-se que uma em cada três pessoas vivas no mundo hoje já tenha manifestado alguma alergia — ao passo que nos anos 70 o time dos alérgicos representava apenas 10% da população mundial.
Uma das teorias para esse crescimento é a chamada "hipótese da higiene", segundo a qual a incidência de doenças alérgicas e autoimunes é inversamente proporcional à de doenças infecciosas e parasitárias — um jeito elegante de dizer que. quanto mais limpinhos ficamos, mais alérgicos nos tornamos. Por causa do excesso de assepsia, do amplo uso de antibióticos e da falta de contato com parasitas intestinais, as células de defesa do organismo não se exercitam, o que explicaria as reações exageradas do sistema imunológico aos agentes alergênicos. Em outras palavras: quando não é treinado, o sistema imunológico inexperiente combale substâncias inofensivas. Há outras explicações relacionadas à vida moderna, como poluição e hábitos de vida, mas a influência da predisposição genética é também ela indiscutível. "Ninguém nasce com alergias, mas filhos de pais alérgicos têm maior tendência a desenvolver o problema", explica João Negreiros Tebyriçá, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia. A seguir, saiba o que os especialistas ensinam sobre a prevenção e o controle dessa aflição.
ALERGIAS DE CONTATO. Principais sintomas: a pele incha, coça e descama Prevenção: produtos hipoalergênicos (veja nota na página 100) reduzem o risco de dermatites de contato. Nem toda dermatite, porém, é uma reação alérgica. "Em geral, as alergias costumam se manifestar no rosto. Nas mãos, são mais comuns as irritações provocadas por produtos de limpeza, que nada têm a ver com alergia", explica o médico Paulo Criado, da Sociedade Brasileira de Dermatologia - são, na verdade, uma reação inflamatória à agressão. Um dos campeões na lista dos agentes alergênicos é o níquel, presente em bijuterias. Portanto, se brincos ou piercings causam coceira, nada de insistir: a exposição contínua ao metal agrava o problema e o eczema local pode se espalhar pelo corpo. E, acredite, o esmalte de unha é um dos principais responsáveis por dermatite alérgica no rosto. Mais fina e sensível, a pele da face absorve as substâncias formaldeído e tolueno, presentes no esmalte, quando a mulher toca o rosto Agentes alergênicos mais comuns: níquel, esmalte de unha, conservantes e fragrâncias de cosméticos, látex (como o de luvas estéreis e de limpeza) e tatuagem de hena Como controlar a crise: além de aplicar pomadas e cremes anti-inflamatórios prescritos pelo médico, o alérgico deve evitar a exposição ao sol durante a crise para prevenir manchas na pele. É preciso ainda suspender a aplicação de outros cosméticos, mesmo os de uso habitual, que podem irritar ainda mais a pele inflamada.
ALERGIAS ALIMENTARES. Principais sintomas: urticária e inchaço nos lábios, olhos e orelhas. Em alguns casos, podem evoluir para o fechamento da glote, o que dificulta ou mesmo impede a respiração Prevenção: 'Ela deve começar na amamentação, pois o leite materno estimula a proliferação da flora intestinal e regula o sistema imunológico", explica a médica paulista Maria Emilia Serra, especialista em alergia alimentar. Depois da primeira crise, cortar da dieta o alimento responsável pela reação é a única forma de evitar o problema. Os exames mais modernos identificam a substância que desencadeia a reação alérgica. "O exame ajuda a prevenir a alergia cruzada, que ocorre quando há reação a um alimento que contém proteínas similares às alergênicas", explica o imunologista Luís Eduardo Coelho Andrade, do laboratório Fleury. Isso significa que uma pessoa alérgica ao látex pode ter crise ao comer abacate, pois a fruta traz proteínas semelhantes às da borracha. Além disso, o teste determina a gravidade da alergia, ou seja, se há risco de uma crise grave ou se ela pode desaparecer ao longo do tempo.
Agentes alergênicos mais comuns: amendoim, camarão e outros frutos do mar costumam A provocar reação imediata. Alguns médicos consideram a hipótese de a alergia tardia, que ocorreria até três dias após a ingestão de alimentos como leite, cereais e ovos, ser a responsável por enxaqueca e outros problemas de saúde. Como controlar a crise: anti-histamínicos amenizam os sintomas leves. Nos casos mais graves, aplica-se uma dose de adrenalina. Atualmente, há vacinas para tentar controlar a alergia alimentar e tratamentos que consistem na reorganização da flora intestinal, seguidos da reintroduçâo gradual do agente alergênico na dieta.
ALERGIAS RESPIRATÓRIAS. Principais sintomas: na rinite alérgica, ocorrem espirros, coceira intensa no nariz, obstrução nasal e coriza. A asma provoca tosse, chiado no peito e falta de ar. Prevenção: a mais comum das alergias - a rinite alérgica atinge 30% da população - é combatida com controle ambiental: manter a casa sempre livre de pó, ventilada e com exposição ao sol. A limpeza do quarto é essencial, pois é lá que o alérgico passa entre oito e dez horas diárias. Para quem trabalha em ambiente fechado, com ar condicionado, a solução é hidratar as narinas com soro fisiológico ao longo do dia. "0 soro ajuda a limpar a mucosa e restaurar a umidade nasal", explica o médico alergista João Negreiros Agentes alergênicos mais comuns: poeira, ácaros, fungos, pólen e pelos de animais.
Como controlar a crise: com anti-histamínicos, para amenizar os sintomas, e corticoide inalado, de açâo anti-inflamatória. As vacinas têm se mostrado eficazes no combate às alergias respiratórias.
Produtos hipoalergênicos são 100% eficazes?
De fato, os cosméticos hipoalergênicos oferecem risco reduzido aos alérgicos. Isso porque suas fórmulas são livres de substâncias que costumam desencadear alergias. "Infelizmente, isso não garante que não haverá reação a outros componentes do produto", diz o dermatologista paulista Paulo Criado. Ao lado, as substâncias mais comumente substituídas nos hipoalergênicos.
Risco de morte
Nos casos mais graves de resposta alérgica, o sistema imunológico reage de forma severa e sistémica, provocando o temido choque anafilático. "Ele nunca acontece no primeiro contato com a substância, pois depende de uma sensibilização prévia do organismo", explica o médico alergista João Negreiros. Portanto, o choque pode ocorrer após a administração de um medicamento de uso corriqueiro, como o analgésico da própria farmacinha do alérgico. Evolução dos sintomas: urticária, crise asmática ou falta de ar provocada por inchaço na garganta, vómito, diarreia, queda na pressão arterial e parada cardiorrespiratória.
TUDO FARMA